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Leonardo Machado:
"Passeio sem precedentes..."

Leandro Ferreira:
"Tentativa simbólica para agradecer
tudo que tenho..."

Fernando Alves:
"Esta pedalada não teria sentido algum se fosse para andar sozinho."

Paulo Rogério:
"O que vale realmente é a fé particular..."

Enio e Lucas:
"O corpo pede para parar. Porém, só com a fé conseguimos prosseguir."

Benito e Enio:
"O percurso é longo. Tem momentos que ficamos sem energia para olhar para a frente."
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Jornalismo Literário
Romaria:
força, poeira e fé!

Exemplos de superação, araxaenses vencem o cansaço e rezam aos pés de Nossa Senhora da Abadia. A equipe do Jornal Interação acompanhou de perto a emoção e o sentimento de dever cumprindo de vários fiéis em instantes de peregrinação pelo cerrado mineiro.
Caminhando 03 (três) dias ou pedalando mais de 10 (dez) horas seguidas, a fé continuou viva no coração de homens e mulheres que deixaram o conforto de seus lares para momentos de cansaço, reflexão e orações.
Texto e fotos: *Ralfer Zaidan
O sol nem fazia força para nascer quando 11 (onze) ciclistas de Araxá seguiram para um desafio nada usual: pedalar aproximadamente 160 km até o pé de Nossa Senhora da Abadia, na cidade de Romaria (MG). O local, considerado o segundo santuário construído em devoção a Nossa Senhora da Abadia da Água Suja no país, recebe nessa época do ano algo em torno de 150.000 (cento e cinqüenta mil) romeiros.
Pagadores de promessas, católicos devotos, camelôs, ambulantes e curiosos dividem o espaço na praça central e ruas adjacentes. Tudo é comercializado: santinhos, medalhas benzidas, fitinhas, sanduíches, picolé, utilização dos banheiros das casas e até mesmo roupa indiana. É uma mistura interessante entre cores, cheiros e percepções religiosas.
A maratona dos atletas em duas rodas teve inicio às 04 (quatro) horas da manhã do dia 08 de agosto. Pela fria madrugada, rodaram 50 (cinqüenta) quilômetros até a primeira parada – em um posto de gasolina na rodovia que liga Araxá a Uberlândia. O segundo “pit stop” dos ciclistas aconteceu 25 (vinte e cinco) quilômetros depois, em Pedrinópolis (MG). No município, os romeiros recarregaram as baterias através de muito melado e queijo ralado; combinaçãoenergéticagentilmente oferecida por um dos integrantes da comitiva de apoio.

Melado com queijo: garantia de energia recarregada para os bikers!
Após Pedrinópolis, o percurso foi realizado em estrada de terra; elevando o nível de dificuldade da pedalada. O calor e a poeira apimentaram ainda mais o trajeto – exigindo assim, habilidade e muita força de vontade para chegar ao santuário. Para o ciclista iniciante Leonardo Machado de Oliveira (36 anos, advogado), o que realmente motivou o passeio foram as lindas paisagens, vontade em chegar a Romaria e a fé. “O espírito de aventura, amizade e companheirismo contribuíram para esse pedal forçado. Vencer 160km em uma bicicleta, foi mais que superação – sou iniciante no esporte e estava um pouco apreensivo diante da extensão e dificuldade do percurso. Para o próximo ano, já estou com presença confirmada. Foi um passeio sem precedentes, que misturou fé, aventura e saúde.”- finaliza.
A terceira parada dos bikers rumo à Santa aconteceu na represa de Nova Ponte. Utilizaram a balsa para a travessia, com destino a Iraí de Minas (MG). Foram aproximadamente 30 minutos com um visual de tirar o fôlego de qualquer um. E o melhor – totalmente gratuito! Até Iraí, a estrada é composta por subidas técnicas que exigem muita concentração e força.
Leandro dos Santos Ferreira (32 anos, analista de sistemas), afirma que apenas a fé consegue quebrar essas barreiras da distância. “Fiz esse trajeto a pé durante 04 anos. E agora, resolvi ir pedalando com os amigos. Em minha opinião é uma tentativa simbólica para agradecer pelo que tenho e como minha vida é. E em um segundo momento, classifico como desafio.” Quando questionado em relação aos 160km de pedal, foi direto: “Espetacular. Durante o percurso e principalmente nos momentos que estive sozinho, passou muita coisa na minha cabeça. Você vê seu companheiro lá na frente e começa a pensar – vou desistir, minhas pernas estão doendo, estou cansado e o ‘que eu estou fazendo aqui?’. Mas, por um outro lado você observa as pessoas caminhando com fé e outras até rastejando. Nesse momento, meu único objetivo era conseguir chegar, nem que fosse empurrando a bicicleta. Se depender de mim e dos meus amigos, ano que vem já estou confirmado no grupo.”- declara.
O gerente de manutenção, Fernando Alves (39 anos) também participou da aventura. Afirma que o desafio pessoal falou mais alto. Queria testar sua resistência seguindo muitas horas pedalando. “Você traça um objetivo, trabalha para conseguí-lo e no final é muito gratificante ver que conseguimos. Mas, não é possível sem fé e sem acreditar em você mesmo. Porém, a companhia dos amigos é mais que importante; acho que esta pedalada não teria sentido algum se fosse para andar sozinho.” – aponta.
Alan Carlos (técnico mecânico) define bem as horas de pedalada: “A emoção de vencer o trajeto é indescritível. É uma mistura de adrenalina com cansaço; é ver que o desafio foi vencido. Imaginar que toda aquela distância ficou para trás é demais. Minha cabeça na última subida do percurso só pensava na imagem da Santa!” – finaliza.
A família de Alessandre Amaral (comprador) conhece muito bem os caminhos da fé no Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba. Seus familiares completaram em 2009, quase duas décadas de caminhada até Romaria. A pé, Amaral já participou durante 08 (oito anos) e como não poderia seguir desta vez com o seu grupo, resolveu pegar a bicicleta e cumprir o seu objetivo com os amigos em duas rodas.

Amaral em uma das subidas técnicas do percurso.
Quem teve a idéia de reunir o grupo de ciclistas e seguir rumo a Nossa Senhora da Abadia da Água Suja, foi Paulo Rogério Jerônimo (37 anos, analista de suporte). “Convidei uma pessoa, duas, três e no final, onze amigos confirmaram a participação. Os bikers deram um brilho especial para o evento. Foram mais de dez horas de muito esforço, subidas intermináveis, poeira e calor. Cada ciclista enfrentou um obstáculo particular. E venceram. Isso é o mais gratificante. Chegar a Romaria, independente de religião ou credo, o que vale realmente é a fé particular. Essa sim consegue mover montanhas.” – conclui o organizador, já com expectativas positivas para o passeio do próximo ano.
Valmir Ribeiro Júnior (46, encarregado de produção), há 12 (doze) anos conhece as estradas utilizadas por fiéis que seguem de Araxá até Romaria a pé. Uma jornada dolorosa, que requer disciplina e força de vontade. “Quando fui pela primeira vez ao santuário, era por curiosidade. Depois disso, sempre vou para agradecer por tudo que me aconteceu no ano, pela minha família, pelo trabalho, pelos amigos e para ter também o meu momento único de reflexão.” – declara. Quando questionado sobre a chegada em Romaria, é direto: “A emoção é enorme. Algo gratificante. É difícil conter as lágrimas quando chegamos aos pés da Santa. Tenho uma promessa particular. Enquanto estiver conseguindo, irei caminhando os três dias. Caso não consiga, irei de apoio.”
Desde criança, acompanhando integrantes de sua família que realizavam a caminhada de Araxá a Romaria, Lucas Ribeiro da Silva (27 anos, inspetor de equipamentos móveis) acredita que a peregrinação é uma oportunidade ímpar de agradecer todas as conquistas e pedir Nossa Senhora da Abadia para iluminar seus passos. “É a 4.ª vez que participo. Cada ano tem emoção renovada. Não tem como explicar o sentimento de alegria e euforia ao terminar a jornada. Aos pés da Santa, todos os problemas que tive durante o ano que passou ficam para trás. Sinto-me renovado para começar um novo ciclo.”
Com 35 (trinta e cinco) anos de idade, o analista de sistemas Benito Pietra Barbieri, acredita que somente o mistério da fé pode explicar o motivo da caminhada. Vítima de um grave acidente encontrou em Deus e na força de vontade, respostas básicas para todo ser humano. “O percurso é longo. Tem momentos que ficamos sem energia para olhar para frente. Porém, a vontade de conseguir é muito maior do que desistir.”
“O corpo pede para parar. Porém, só com a fé continuamos.” – afirma Enio Amaral (27, programador de manutenção). Para Amaral, os 3 (três) dias de caminhada são para agradecer as graças alcançadas. “É uma sensação inexplicável. Passa um filme na sua cabeça de tudo que se viveu no caminho e na sua vida.” – finaliza.
Jenner Syrio Rego (26 anos, técnico de instrumentação) também participou pela quarta vez da caminhada rumo a Romaria. Afirma que os dois primeiros anos foram apenas como aventura: provar que sua condição física e mental estava boa para a façanha. E agora, caminha para agradecer pelas coisas boas que estão acontecendo em sua vida. “Existem trechos de caminhada que são desanimadores. Mas nem mesmo o cansaço, as bolhas nos pés, o sol, a poeira na rodovia conseguem atrapalhar o nosso objetivo. É emocionante.” – declara.
Ésio da Silva Nunes (34 anos, analista de sistemas) afirma: “Não acho correto dizer que vencemos os quilômetros de caminhada. Não considero uma competição. Chegar ao santuário, na companhia dos amigos, aprendendo, ouvindo durante os 3 (três) dias, vale cada dor que sentimos. Toda vez no percurso, olhando aquele tanto de terra pela frente sempre me pergunto se no próximo ano estarei fazendo aquilo novamente. Mas, em Romaria o assunto muda. Esquecemos tudo e já começamos a combinar a próxima caminhada.”
O técnico mecânico, Jeder Luiz Francisco (31 anos) afirma que é um momento de superação das condições adversas que o corpo e a mente passam durante a caminhada. “A peregrinação começou na minha vida, com o objetivo de encontrar algo que demonstrasse a verdadeira convicção da existência de Deus; que acima de tudo nos criou. E assim, encontrar forças para superar desafios que refletem no nosso cotidiano.” – finaliza.
Para os moradores de Romaria, são duas semanas agitadas na cidade. Fiéis chegando sem espaço de tempo. Momento para prestar algum tipo de serviço e tirar uma graninha extra no final do mês. “Sô” Juvenal Afonso Cardoso (67 anos, aposentado) aproveita o terreno ao lado de sua casa para oferecer estacionamento fechado com o custo de R$5,00 (cinco reais). “Pode ficar o tempo que quiser meu filho. Mas, tem que pagar na chegada.” – fala Cardoso ao se aproximar de um veículo que acabava de manobrar em seu espaço. “Tem romeiros que procuram por comida, cama e banho. Temos apenas chuveiro. R$ 2,00 (dois reais) por pessoa. Esse movimento ajuda no orçamento do final do mês.” – declara.
Manifestações religiosas como esta, que acontece na cidade de Romaria no mês de agosto, conseguem registrar o carinho e o respeito do povo brasileiro por suas origens e tradições. São milhares de relatos individuais carregados de amor e fé, que marcam a história de uma região. “Que Nossa Senhora da Abadia da Água Suja cuide de todos os seus fiéis. Amém”.
 
 
 
Arquivo
de Ralfer Zaidan
*Ralfer Zaidan é jornalista. Matéria
publicada no Jornal Interação e Jornal Alto Paranaíba
(JAP)
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