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Crônica
Na
fronteira da informação.
Meios
de comunicação, responsabilidade e notícia.
Até onde podemos chegar?
*Ralfer
Zaidan
Eu poderia
começar o texto especulando sobre o seu favorito meio de comunicação,
estimado leitor. Arriscaria pela preferência da prática e
flexível internet – um cibernético mar revolto de
dados; questionaria sobre a sua freqüência favorita de rádio
ou até mesmo, em que canal de TV você gosta de passar a maior
parte do tempo quando está de folga.
Mas não. Prefiro começar de outra forma. Estamos situados
exatamente em um período da história onde os homens ainda
proporcionam incompreensíveis batalhas. Decidi falar sobre limites.
Margens estas, que ao serem utilizadas com inteligência e objetividade,
possuem o poder de nos conduzir ao respeito e entendimento coletivo entre
as sociedades.
Ainda na memória, consigo lembrar com detalhes de algumas passagens
interessantes que aconteceram na minha infância. Principalmente,
dos carnavais e feriados prolongados onde sem escolha, tinha que deslocar
com a família de Araxá para um sítio localizado cerca
de 40km do município. Desesperador? Aparentemente, não.
Minha mãe repetia várias vezes num dia antes de partirmos:
“Vamos para o sítio descansar...”. Para mim, era o
exílio. Ficaria a próxima semana inteira, no isolamento
- onde meu amigo mais próximo, era um pé de goiaba lá
no fundo da horta. Cheguei até mesmo a construir um “forte”
no meu companheiro – onde, imaginariamente, lutava contra os inimigos
que surgiam por todas as partes.
Logo o sol partia. Sete horas da noite era o momento exato para terminar
de jantar e alcançar o quarto para dormir. Não tínhamos
televisão e tão pouco, energia elétrica. Naquele
tempo, principalmente no sítio, o legal era ficar ao lado do rádio.
Escutei desfiles carnavalescos inteiros, imaginei fantasias e podia ver
pessoas reunidas. E era só. Sabia que naquele meu aparente limite,
talvez as ondas hertzianas fossem o meio ideal para que eu pudesse compreender
agora - cerca de vinte anos depois, que precisamos entender e respeitar
as fronteiras.
Mas, você deve estar se perguntando o motivo pelo qual, conto essa
passagem particular. Utilizei um pedaço da minha “molequice”
para lembrar que grande parte das pessoas que cheguei a conhecer nos limites
rurais, ainda vivem como seus antepassados e não abrem mão
dos costumes – frango caipira ensopado, fogão à lenha,
serpentina e iluminação provinda de uma lamparina à
base de querosene. Notícia? Apenas por aquele motorádio
com quatro ou seis faixas. Ficavam atentos para as mensagens que as famílias
mandavam da cidade através de uma estação, em ondas
AM – e mais nada ou não tinham interesse.
Como comunicadores, compreendemos a real necessidade da divulgação
de uma informação coerente, ética e aprofundada.
Em tempos de guerra, respeitamos nossas fronteiras e levamos em um tom
mais sério, a nossa profissão. E são nessas passagens,
que conseguimos observar o poder que temos em nossas mãos. Por
mais avançados que sejam os meios de informações
ainda não conseguiram alcançar igualitariamente todas as
partes do globo. Alguns sabem e acompanham diariamente as principais informações
gerais - outros não.
Vivemos tensos e preocupados. Talvez, obcecados com o número de
notícias que nos circundam. É tempo de conflitos –
tanto internos como mundiais. Como comunicadores, caberia a nós,
a responsabilidade de levar até à comunidade mais distante
que seja, a triste afirmação que estamos em guerra? Que
o mundo chora e pede insistentemente pela paz? Caberia a nós esta
tarefa? Conflito para eles, só aconteceu uma vez quando resolveram
sacrificar um boi de estimação que havia quebrado uma das
patas e estava sofrendo. Toda família ficou desolada. Seria a nossa
responsabilidade mostrar imagens bárbaras, fruto de atitudes insanas?
Apresentar mísseis arruinando cidades e pessoas sendo metralhadas
covardemente? Não sei se eu seria capaz de transmitir tudo isso
ou se teria meios de comunicação para tal.
Agora em por menores, se algum imbecil prepotente tiver a capacidade de
apertar algum botão para lançar uma bomba de destruição
em massa num dia qualquer desses, juro que desejaria estar lá no
sítio. Naquele meu exílio e que talvez, hoje, seria o descanso
que a minha mãe tanto falava. E de fato, naquele contexto –
respeitando meus limites e as fronteiras determinadas, procurava entender
aquilo que estava ao meu redor, sem tentar possuir ou dominar. Lá
no campo, iria saber de frutos, de animais de estimação
e daquela velha rede estendida na varanda. E mais nada.
Arquivo
de Ralfer Zaidan
*Ralfer Zaidan é jornalista. Matéria
publicada no Jornal Interação e Jornal Alto Paranaíba
(JAP) - 01/09/2008
Direitos reservados.
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