Fazenda São Matheus, Ibiá-MG





Família Aguiar: Tradição que segue gerações na região

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Sr. Alonso José de Aguiar (in memorian): simpatia e hospitalidade em receber a nossa equipe

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Varanda principal da Fazenda


Sala principal

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


O "Trapizonga"

 


Jornalismo literário

Nas trilhas do Sertão da Farinha Podre
A partir do século XVII, as riquezas existentes em Araxá e região foram alvos de disputas que atraíram colonizadores de várias partes do mundo

Texto: Ralfer Zaidan
Fotografia: Maurício de Castro


Na construção de idéias - ou melhor, na reconstituição da história da vida, o próprio bicho homem vem desempenhando um papel fundamental diariamente. Por caminhos e trilhas, a memória - uma aliada importante na escada do desenvolvimento, prepara a sociedade para a escola da evolução. Se isso é possível? Claro que sim, leitor. A nossa forma de guardar fatos, datas e situações remete o homem ao equilíbrio; balanceando assim, o que realmente aprendendemos com o passado - adaptando o presente e melhorando consideravelmente os dias que virão.

Mas, a final, por acaso você leitor, já parou algum instante para pensar no titulado futuro? Talvez, sim. Ou até mesmo, já o vive intensamente numa eterna construção de expectativas sóbrias e sorrateiras. Para que tudo funcione na mais perfeita harmonia, começamos em certos momentos, a formular a reconstituição do mito da "união e do nascimento". Fora da expectativa da gestação, façamos um enfoque então, na criação de sociedades - das vilas e povoados mais próximos, deste mundão que pouco conhecemos - as Minas Gerais.

Nas trilhas da colonização, façamos agora uma viagem pelo tempo do importante e conhecido Sertão da Farinha Podre. No início do século passado, esta região funcionou como o principal elo de ligação para tropeiros que cruzavam as terras paulistas e mineiras em busca dos campos prósperos goianos.

Estrategicamente - o local que pode ser compreendido hoje como o antigo Sertão da Farinha Podre, limita-se entre as regiões do Alto Paranaíba e Triangulo Mineiro. É estranho falar em Farinha Podre. Mas, era sim que os viajantes encontravam presos em árvores pelos caminhos, o restante dos mantimentos deixados por tropas que passaram pela região anteriormente. Na expectativa de um breve retorno, acondicionavam alimentos em certo ponto da estrada; aliviando assim, o peso das bagagens.

Boa parte dos tropeiros, firmava residência pelas bandas goianas; e a outra, se aventurava em novas jornadas e desafios. Na maioria das vezes, não voltavam pelo mesmo caminho da viagem de ida. Com a chegada de mais tropeiros e viajantes pelas estradas, o encontro com alimentos estragados acabava se tornando inevitável. Por isso a denominação Sertão da Farinha Podre. E nesta passagem de idas e voltas, cidades como Araxá, Uberaba e Desemboque, foram sendo construídas vagarosamente.

Na história do tempo, famílias se formaram e destinos - sonhos, romances e ideais, ficaram marcados para sempre no gosto da lembrança. Ainda ontem, quando crianças, fomos testemunhas do crescimento. Moleques brincando nas ruas, a pipa, o rolimã e até mesmo os rojões, rechearam de adrenalina pequenos corações afoitos. Nesta mesma correria, gente nova foi aparecendo e aqueles guris, agora moços, entendem o significado do termo união.

Nesta junção, pessoas marcaram fundamentais vínculos de progresso no contexto em que estavam inseridos. Casamentos começaram a dar um brilho especial na história do crescimento; e estas famílias, cederam espaço para mais famílias e novas gerações - desenvolvendo assim, o então Sertão da Farinha Podre.

Viagem pelo Sertão da Farinha Podre



Quem nunca viveu um fim de semana na fazenda, amanheceu com o cantar dos pássaros, bebeu um leite tirado na hora, saboreou uma fruta fresquinha e saiu pelas trilhas cortando uma mata até chegar numa bela cachoeira, com águas límpidas e transparentes? Um banho refrescante com o observar dos pássaros e todo esse prazer que um dia já desfrutamos fazia parte do cotidiano dos tropeiros que buscavam as terras de São Domingos do Araxá - conduzindo o gado até as fontes de água para alimentação com sal natural.

E de curiosidades vive o homem. Com aquela inquietação de resgatar um pouco da história, que em um fim-de-semana, conhecemos o Sr. Alonso José de Aguiar - um dos herdeiros históricos da colonização do Sertão da Farinha Podre. Seu pai, o Coronel José Adolpho de Aguiar, juntou patrimônio, riquezas e amigos ao longo de sua vida. Em sua fazenda, a conhecida São Matheus - foi palco de várias festas com presenças ilustres, como chefes de estado e até mesmo, de presidentes da república, como Getúlio Vargas. Mais tarde, o casarão e a região ganhariam reconhecimento nacional, tornando-se cenário de novela.

Em um fim de semana desses, as portas de São Matheus foram abertas. O reencontro com um fragmento da história - aquela que escutamos nos bancos das escolas, ficou ao nosso alcance. O que escutávamos quando éramos crianças, estava ali - naquela tranquila fazenda.

Café, pão de queijo e vitrola

Pegamos o carro logo pela tarde. Ambos, criávamos sucessivamente imagens do que poderíamos encontrar nas próximas horas. Como combinado, faríamos uma pequena viagem até o município de Ibiá, MG.

Como companhia, somente os nossos guias - Sr. Alonso José de Aguiar, 83 anos (in memorian); Mizael José Adolfo de Aguiar, 40 e o pequeno Adolpho José de Aguiar, 7. Para a viagem e como programado, o intuito de todo o trabalho era poder conhecer um pouquinho do passado. Depois de conversarmos sobre o assunto, a ansiedade acabou se tornando personagem e companheira durante todo o trajeto.

E discutimos muito. Conversamos sobre coisas da vida e da própria origem destes detalhes que escrevem minuciosamente o tesouro de culturas, religiões, tradições e sentimentos. O automóvel continuava cortando o sertão já ibiaense sob o olhar atento do daquele senhor octogenário.

O "sô Alonso", como já o tratávamos, apresentava características peculiares. O olhar, era de saudade. Talvez, sentia falta em poder observar diariamente o brilho da natureza. "36km de asfalto e 5 de terra.", foram as palavras daquele senhor que trajava uma calça creme, camisa social listrada e um chapeuzinho - estilo Chico Xavier. Falava baixinho. Esforçávamos no intuito de não perde nenhum dos detalhes comentados por ele. "Tenho nove pontes no coração e ainda estou forte. Já fiz mais ponte do que muitos prefeitos..." - brincou o tio Aguiar.

A paisagem, esta colorida pelo sol, acabava se misturando com uma linha ao longe - que acidentalmente chamamos de horizonte. Pois bem. Naquele local longe, em meio a vegetação do cerrado, surgia lentamente a imagem de uma cerca e de uma aglomeração de árvores. O carro foi perdendo velocidade. Nossos olhares demonstravam surpresa. Sair do automóvel? Claro que sim. Como crianças, não acreditávamos no que víamos. Um enorme, maravilhoso e intacto casarão, redefinia linhas de uma época marcada pelo poder, luxo e conforto. A entrada, cortada pela antiga estrada de terra que ligava Araxá a capital minera, parecia conter uma placa com os seguintes dizeres: "Seja bem vindo. Nos próximos metros, uma narrativa completa parada aqui - com fatos que não estão em livros de história. Faça bom uso!"


Coleções do Coronel

Estávamos em frente a São Matheus - um lugar, ou melhor, um refúgio do próprio tempo, que não quis partir. Grandes janelas e uma admirável varanda, faziam-se detalhes de uma construção colonial, com dois andares e conservada até mesmo com ajuda da natureza. Isso mesmo leitor. Acabávamos de chegar na sede da fazenda São Matheus - uma propriedade com aproximadamente 700 alqueires. A casa - com seus dois andares e 38 cômodos, consegue registrar perfeitamente todo o poder do então Coronel na época, José Adolpho de Aguiar.

Estávamos na varanda principal. Cadeirinhas rústicas e uma pequena mesa completavam o ambiente. A campanhia - um objeto de ferro e no formato de uma mão fechada presa a porta, proporcionava um som seco, meio grave quando tocada - identico a batidas em um filmes de terror ou suspense. Daquele local, podia ser visto bem próximo, algumas outras construções que fazem parte da sede da fazenda e que conheceríamos nos próximos instantes.

Para aguçar ainda mais a nossa vontade de entrar no casarão, a porta principal estava emperrada. Neste momento, o braço direito da propriedade - o caseiro Pedro, que por longa data acompanha a família, também fazia força pelo interior sem obter sucesso. A solução proposta no instante, nos encaminhou logo para o fundo da casa - onde entraríamos por uma porta já aberta. Fizemos então, o percurso contrário - cortando comodos até chegar a ante-sala principal, onde começaríamos a nossa viagem pela história.

Logo à esquerda, uma sala totalmente decorada - com pinturas na própria parede e móveis de época. Num canto, Sô Alonso abriu como se fosse uma caixa, um dos aparelhos musicais mais antigos do país. Antes ainda do famoso bolachão - disco de vinil, o dispositivo continha rolos de partituras. Rodando uma pequena manivela, o som ecoava-se por todo o recinto - lembrança de um tempo marcado por muitas festas e visitas ilustres. Num baú em baixo do aparelho musical, outras dezenas de partituras se misturavam.

No lado oposto da sala, um porta retrato nos chamou a atenção. Acompanhado por um belo arranjo, o objeto continha a foto do Coronel José Adolfo de Aguiar e de sua esposa, Dona Silvéria. Percorrendo todos os quartos do andar superior do casarão, fomos orientados a entrar em um recinto nobre. No local, deparamos com a existência de uma chamativa cristaleira. "Mil e quinhentas xícaras. Todas catalogadas neste livro e inclusive, com o nome das pessoas que presentearam o coronel." - afirmou "seu Alonso".

As páginas - estas já amareladas com o tempo, acabaram revelando um fato interessante - há pouco tempo atrás, em quanto fazíamos uma visita as obras de restauração do Grande Hotel de Araxá, um dos funcionários responsáveis acabou nos contando uma lenda. Conforme falado - uma rica senhora que se hospedava no hotel no passado acabou morrendo ao cair no fosso do elevador. Esta história ficou conhecida por muitos. O que mais nos espantou, estava no livro das xícaras presenteadas. Quando nosso anfitrião parou na letra "M", lá estava o nome da senhora - Madame Alegria. De lenda à história real, visitar a fazenda São Matheus acabou se tornando uma pura viagem na imaginação.

Naquele mesmo lugar, a coleção de xícaras dividia espaço com uma outra coleção - a de canivetes. Para mostrar um pouco da nostalgia dos tempos de ouro do coronel, Sô Alonso colocou na vitrola - que está em perfeito funcionamento, um disco de vinil original, gravado na festa de 60 anos do ilustre. "A cantora Linda Batista veio para a festa. Mataram quinze bois e tinha mil litros de chopp." - lembra o senhor.

Um telefone a moda antiga - em funcionamento; cadeados, esfera pesadas e registros de escravos, comprovam que por aquele espaço também houve a presença de negros. Máquina registradora, esporas, pratarias, oratórios, coleção de máquinas fotográficas e tachos de cobre completavam o ambiente antigo da casa.

Após passarmos pelos cômodos mais importantes da sede, houve o convite para conhecermos as proximidades. Logo a baixo e seguindo os passos ágeis de Alonso, percorremos um caminho totalmente florido. O trapizonga era o nosso destino. Isso mesmo leitor - não se assuste com o nome: trapizonga. A engenhoca - uma das invenções mais modernas da época, substituía o monjolo - invés de apenas um pilão fazer o serviço de "socamento" dos farelos, o trapizonga fazia o esmagamento de quatros tipos de farelos simultaneamente.


Sr. Alonso seguindo para o"Trapizonga"

Vimos currais, brincamos com o cachorro de estimação e fotografamos. Tentamos guardar na imagem estática, apenas o "gostinho" da saudade e a vontade de um retorno breve ao local. Anestesiados com toda aquela novidade que já era antiga quando nascemos, sô Alonso acabou fazendo um convite irrecusável – tomar um cafezinho e comer pão de queijo lá na sede. Aceitamos sem questionamentos. Na mesa, aproveitamos aqueles instantes finais para falarmos da vida e de negócios. Maurícinho comentou de um lote residencial que pretende vender futuramente. Sô Alonso – como um bom fazendeiro, deu sua opinião e conselho. Adolfinho molhava o pão de queijo no café e dividia sua atenção com o pai, Mizael.

E toda história de colonização nos remete a vontade de conhecer, perguntar e provar. O Sertão da Farinha Podre acaba se transformando nisso – um pedaço saboroso da evolução. Sem esquecermos é claro, que uma viagem de aproximadamente cinquenta minutos nos fez perder na linha do tempo. Pão de queijo, café, vitrola e prosa.


Arquivo de Ralfer Zaidan
*Ralfer Zaidan e Maurício de Catro são jornalistas.

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