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Texto: Ralfer
Zaidan Mas, a final, por acaso você leitor, já parou algum instante para pensar no titulado futuro? Talvez, sim. Ou até mesmo, já o vive intensamente numa eterna construção de expectativas sóbrias e sorrateiras. Para que tudo funcione na mais perfeita harmonia, começamos em certos momentos, a formular a reconstituição do mito da "união e do nascimento". Fora da expectativa da gestação, façamos um enfoque então, na criação de sociedades - das vilas e povoados mais próximos, deste mundão que pouco conhecemos - as Minas Gerais. Nas trilhas
da colonização, façamos agora uma viagem pelo tempo
do importante e conhecido Sertão da Farinha Podre.
No início do século passado, esta região funcionou
como o principal elo de ligação para tropeiros que cruzavam
as terras paulistas e mineiras em busca dos campos prósperos goianos.
Boa parte dos tropeiros, firmava residência pelas bandas goianas; e a outra, se aventurava em novas jornadas e desafios. Na maioria das vezes, não voltavam pelo mesmo caminho da viagem de ida. Com a chegada de mais tropeiros e viajantes pelas estradas, o encontro com alimentos estragados acabava se tornando inevitável. Por isso a denominação Sertão da Farinha Podre. E nesta passagem de idas e voltas, cidades como Araxá, Uberaba e Desemboque, foram sendo construídas vagarosamente. Na história do tempo, famílias se formaram e destinos - sonhos, romances e ideais, ficaram marcados para sempre no gosto da lembrança. Ainda ontem, quando crianças, fomos testemunhas do crescimento. Moleques brincando nas ruas, a pipa, o rolimã e até mesmo os rojões, rechearam de adrenalina pequenos corações afoitos. Nesta mesma correria, gente nova foi aparecendo e aqueles guris, agora moços, entendem o significado do termo união. Nesta junção,
pessoas marcaram fundamentais vínculos de progresso no contexto
em que estavam inseridos. Casamentos começaram a dar um brilho
especial na história do crescimento; e estas famílias, cederam
espaço para mais famílias e novas gerações
- desenvolvendo assim, o então Sertão da Farinha Podre.
E de curiosidades
vive o homem. Com aquela inquietação de resgatar um pouco
da história, que em um fim-de-semana, conhecemos o Sr.
Alonso José de Aguiar - um dos herdeiros históricos
da colonização do Sertão da Farinha Podre. Seu pai,
o Coronel José Adolpho de Aguiar, juntou patrimônio,
riquezas e amigos ao longo de sua vida. Em sua fazenda, a conhecida São
Matheus - foi palco de várias festas com presenças ilustres,
como chefes de estado e até mesmo, de presidentes da república,
como Getúlio Vargas. Mais tarde, o casarão e a região
ganhariam reconhecimento nacional, tornando-se cenário de novela. Café, pão de queijo e vitrola Pegamos o carro logo pela tarde. Ambos, criávamos sucessivamente imagens do que poderíamos encontrar nas próximas horas. Como combinado, faríamos uma pequena viagem até o município de Ibiá, MG. Como companhia, somente os nossos guias - Sr. Alonso José de Aguiar, 83 anos (in memorian); Mizael José Adolfo de Aguiar, 40 e o pequeno Adolpho José de Aguiar, 7. Para a viagem e como programado, o intuito de todo o trabalho era poder conhecer um pouquinho do passado. Depois de conversarmos sobre o assunto, a ansiedade acabou se tornando personagem e companheira durante todo o trajeto. E discutimos muito. Conversamos sobre coisas da vida e da própria origem destes detalhes que escrevem minuciosamente o tesouro de culturas, religiões, tradições e sentimentos. O automóvel continuava cortando o sertão já ibiaense sob o olhar atento do daquele senhor octogenário. O "sô Alonso", como já o tratávamos, apresentava características peculiares. O olhar, era de saudade. Talvez, sentia falta em poder observar diariamente o brilho da natureza. "36km de asfalto e 5 de terra.", foram as palavras daquele senhor que trajava uma calça creme, camisa social listrada e um chapeuzinho - estilo Chico Xavier. Falava baixinho. Esforçávamos no intuito de não perde nenhum dos detalhes comentados por ele. "Tenho nove pontes no coração e ainda estou forte. Já fiz mais ponte do que muitos prefeitos..." - brincou o tio Aguiar. A paisagem,
esta colorida pelo sol, acabava se misturando com uma linha ao longe -
que acidentalmente chamamos de horizonte. Pois bem. Naquele local longe,
em meio a vegetação do cerrado, surgia lentamente a imagem
de uma cerca e de uma aglomeração de árvores. O carro
foi perdendo velocidade. Nossos olhares demonstravam surpresa. Sair do
automóvel? Claro que sim. Como crianças, não acreditávamos
no que víamos. Um enorme, maravilhoso e intacto casarão,
redefinia linhas de uma época marcada pelo poder, luxo e conforto.
A entrada, cortada pela antiga estrada de terra que ligava Araxá
a capital minera, parecia conter uma placa com os seguintes dizeres: "Seja
bem vindo. Nos próximos metros, uma narrativa completa parada aqui
- com fatos que não estão em livros de história.
Faça bom uso!" Estávamos
em frente a São Matheus - um lugar, ou melhor, um refúgio
do próprio tempo, que não quis partir. Grandes janelas e
uma admirável varanda, faziam-se detalhes de uma construção
colonial, com dois andares e conservada até mesmo com ajuda da
natureza. Isso mesmo leitor. Acabávamos de chegar na sede da fazenda
São Matheus - uma propriedade com aproximadamente 700 alqueires.
A casa - com seus dois andares e 38 cômodos, consegue registrar
perfeitamente todo o poder do então Coronel na época, José
Adolpho de Aguiar. Para aguçar ainda mais a nossa vontade de entrar no casarão, a porta principal estava emperrada. Neste momento, o braço direito da propriedade - o caseiro Pedro, que por longa data acompanha a família, também fazia força pelo interior sem obter sucesso. A solução proposta no instante, nos encaminhou logo para o fundo da casa - onde entraríamos por uma porta já aberta. Fizemos então, o percurso contrário - cortando comodos até chegar a ante-sala principal, onde começaríamos a nossa viagem pela história. Logo à esquerda, uma sala totalmente decorada - com pinturas na própria parede e móveis de época. Num canto, Sô Alonso abriu como se fosse uma caixa, um dos aparelhos musicais mais antigos do país. Antes ainda do famoso bolachão - disco de vinil, o dispositivo continha rolos de partituras. Rodando uma pequena manivela, o som ecoava-se por todo o recinto - lembrança de um tempo marcado por muitas festas e visitas ilustres. Num baú em baixo do aparelho musical, outras dezenas de partituras se misturavam. No lado oposto da sala, um porta retrato nos chamou a atenção. Acompanhado por um belo arranjo, o objeto continha a foto do Coronel José Adolfo de Aguiar e de sua esposa, Dona Silvéria. Percorrendo todos os quartos do andar superior do casarão, fomos orientados a entrar em um recinto nobre. No local, deparamos com a existência de uma chamativa cristaleira. "Mil e quinhentas xícaras. Todas catalogadas neste livro e inclusive, com o nome das pessoas que presentearam o coronel." - afirmou "seu Alonso". As páginas - estas já amareladas com o tempo, acabaram revelando um fato interessante - há pouco tempo atrás, em quanto fazíamos uma visita as obras de restauração do Grande Hotel de Araxá, um dos funcionários responsáveis acabou nos contando uma lenda. Conforme falado - uma rica senhora que se hospedava no hotel no passado acabou morrendo ao cair no fosso do elevador. Esta história ficou conhecida por muitos. O que mais nos espantou, estava no livro das xícaras presenteadas. Quando nosso anfitrião parou na letra "M", lá estava o nome da senhora - Madame Alegria. De lenda à história real, visitar a fazenda São Matheus acabou se tornando uma pura viagem na imaginação. Naquele
mesmo lugar, a coleção de xícaras dividia espaço
com uma outra coleção - a de canivetes. Para mostrar um
pouco da nostalgia dos tempos de ouro do coronel, Sô Alonso colocou
na vitrola - que está em perfeito funcionamento, um disco de vinil
original, gravado na festa de 60 anos do ilustre. "A cantora Linda
Batista veio para a festa. Mataram quinze bois e tinha mil litros de chopp."
- lembra o senhor. Um telefone a moda antiga - em funcionamento; cadeados, esfera pesadas e registros de escravos, comprovam que por aquele espaço também houve a presença de negros. Máquina registradora, esporas, pratarias, oratórios, coleção de máquinas fotográficas e tachos de cobre completavam o ambiente antigo da casa. Após
passarmos pelos cômodos mais importantes da sede, houve o convite
para conhecermos as proximidades. Logo a baixo e seguindo os passos ágeis
de Alonso, percorremos um caminho totalmente florido. O trapizonga era
o nosso destino. Isso mesmo leitor - não se assuste com o nome:
trapizonga. A engenhoca - uma das invenções mais modernas
da época, substituía o monjolo - invés de apenas
um pilão fazer o serviço de "socamento" dos farelos,
o trapizonga fazia o esmagamento de quatros tipos de farelos simultaneamente.
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