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Ajustando
dial - o Rádio merece nossa atenção
* Jeferson Fued Nacif
Passei
meus primeiros dezoito anos de vida no interior de Minas Gerais. Lembro-me
muito bem do rádio sempre ligado nas duas únicas emissoras
de rádio AM da cidade – Rádio Imbiara e Rádio
Cidade. A programação radiofônica, além de
ser a principal fonte de informações sobre a cidade e a
região do Alto Paranaíba, era a única forma de ter
acesso à programação musical regional.
Por muitos anos, as
duas rádios AM eram as únicas que a cidade possuía,
não tínhamos nem rádios FM! Ou seja, a Rádio
AM cumpria importantíssimo papel.
Apesar do
tempo passado, da oferta maior de rádios AM, FM e comunitárias
terem chegado a muitas cidades brasileiras e de que as fontes de informação
abundaram em suas formas, creio que o rádio continua desempenhando
papel importante de contato com o público, representando fonte
de informação segura, e às vezes a única,
para grande parte da população interiorana desse imenso
Brasil.
Ainda hoje o rádio
mantém as características que o fazem, apesar de antigo,
uma tecnologia vencedora. Aspectos como gratuidade, mobilidade, facilidade
de acesso, simplicidade de acesso, baixo custo, transmissões ao
vivo, integração com a comunidade (primeira forma de interatividade),
entretenimento, jornalismo e informação de qualidade.
Esses atributos
fazem com que o rádio permaneça vivo apesar da emergência
das novas mídias e da convergência tecnológica.
Encontramo-nos novamente
em mais uma importante fase da história das comunicações
do Brasil. Estamos em vias de decidir qual o padrão de rádio
digital será adotado. Uma vez mais, as opções estão
entre os grandes Países desenvolvedores de tecnologia. Tal como
nas definições anteriores da tecnologia digital de celulares
e da televisão terrestre, a sociedade brasileira terá que
se decidir sobre padrões e sistemas de siglas complicadas e que
poucos dominam.
De novo, a decisão
recairá sobre o governo, afinal falamos de uso do espectro radioelétrico
– recurso cada vez mais escasso e valioso. Essa escolha mexerá
com toda uma indústria composta por radiodifusores de diversos
pesos econômicos, fabricantes idem – dos grandes produtores
de equipamentos para a indústria automotiva até os pequenos
e desconhecidos fabricantes nacionais - e, obviamente, com praticamente
toda a sociedade, ou, mais precisamente, 89% dos domicílios brasileiros
que possuem rádio.
O debate mal começou
e o Ministério das Comunicações já pôde
sentir o peso das pressões. Diferentemente da televisão
digital terrestre em que os três padrões existentes travaram
uma acirrada guerra de informações tentando mostrar que
poderiam oferecer mais vantagens técnicas, comerciais ou tecnológicas.
Os padrões de rádio digital não estão sequer
num nível de desenvolvimento técnico suficientemente maduro
para serem propagandeadas, quanto mais oferecer vantagens.
Logo nos primeiros
testes já podemos observar que as transmissões digitais
apresentam um atraso de 8 segundos do sinal digital em relação
ao analógico, que a cobertura digital ainda é menor do que
a analógica e que existem algumas dificuldades nas transmissões
ao vivo.
Por ora, apenas promessas
de desenvolvimento futuro. Isso mesmo! Apesar de ainda termos muito para
estudar sobre os padrões DRM, HD-Radio, T-DMB, DAB, ISDB-TSB ou
ainda o DAB+ ou o DRM+ tenho apenas uma convicção: não
estamos prontos para decidir sobre um padrão tecnológico
nos próximos dois anos.
As experiências
mais relevantes e antigas estão na Europa, com as tecnologias DRM,
DRM+, DAB, DAB+ e T-DMB. Os Estados Unidos também não ficam
para trás, com a tecnologia HD Radio. Os primeiros testes com o
rádio digital tiveram início nos anos 80.
Apesar disso, nenhuma
das tecnologias têm empolgado os radiodifusores nem os consumidores.
A começar pelo que vimos acima. São mais de cinco padrões
e variações de padrões que seguem caminhos distintos
aumentando a complexidade da escolha para radiodifusores e, conseqüentemente,
para os governos.
Acredito que a primeira
ação que devemos tomar é estabelecer os critérios
básicos sobre os quais a sociedade brasileira deseja ter como produto
da indústria de radiodifusão. Estamos numa fase em que questionarmos
é mais importante do que obtermos respostas.
A busca de um modelo
de sociedade, na qual a radiodifusão é um importante produto
de sua construção, me parece um imprescindível primeiro
passo para que a escolha de um padrão tecnológica seja –
por fim – alcançado.
Quero ressaltar esse
ponto. Ao respondermos que tipo de sociedade queremos, que tipo de radiodifusão
queremos e o que podemos fazer para chegarmos ao intencionado, a tecnologia
chegará não como uma imposição ou um produto
sobre o qual deveremos nos encaixar, mas uma ferramenta que nos auxiliará
a alcançarmos os objetivos inicialmente propostos.
Certamente, haveremos
de buscar as melhores e mais confiáveis informações
sobre os padrões. Isso não é trivial, todavia. Essa
tarefa demandará tempo e recursos do governo. Mesmo os mais respeitados
profissionais da radiodifusão e acadêmicos da área
de telecomunicações ainda têm dificuldades em responder
com segurança quais os principais atributos de tantas variações
tecnológicas e o status de desenvolvimento de todos os padrões.
Nesse cenário,
a tarefa do governo me parece ainda mais desafiadora do que a escolha
do padrão de televisão digital terrestre.
Nesse sentido, temos
que nos perguntar quais seriam os atributos da radiodifusão os
quais a sociedade brasileira não abdicaria. Seria a manutenção
da programação atual das rádios? A manutenção
do modelo de financiamento pela publicidade – o que o torna praticamente
gratuito para o cidadão - ou um misto com financiamento público
– como na Europa?
A abertura no espectro
para novas Rádios? A segmentação da programação
de forma a contemplar públicos distintos? A permanência das
emissoras nas faixas atuais do dial? O simulcasting, ou seja, a transmissão
simultânea de sinais analógicos e digitais? Por quanto tempo?
E como ficam as rádios comunitárias nesse processo de digitalização?
Isso porque os transmissores
são caros. Entre US$ 100 e 200 mil no sistema HDRadio norte-americano.
A vantagem é o menor consumo de energia elétrica.
A digitalização
deve possibilitar o uso mais eficiente do espectro, menor consumo de energia,
sinais mais robustos para que os ouvintes ouçam as transmissões
com melhor qualidade. Deve permitir também a transmissão
de dados e a interatividade, possibilitando aos radiodifusores uma oferta
maior de serviços como personalização da programação,
recebimento de notícias, informações sobre as músicas.
Espera-se também
que a digitalização possibilite espaço para que outras
rádios entrem no dial oferecendo maior oferta de conteúdo
para os ouvintes. A digitalização deve também fazer
ressurgir faixas até então esquecidas por nós, como
as ondas curtas – muito úteis, pois de amplo raio de propagação.
Por fim, creio que a digitalização deve facilitar os agentes
de fiscalização do Estado na atividade de coibição
das rádios clandestinas.
Espero que este não
seja o único artigo sobre esse assunto que escrevo e que os leitores
possam ajudar na construção do entendimento sobre o modelo
de rádio digital que a sociedade brasileira merece.
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