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INSTITUIÇÕES
E DESENVOLVIMENTO
• Jeferson Fued Nacif
A lixeira das reformas
institucionais no Brasil está transbordando. Mesmo assim, por maior
que tenha sido o número de instituições ou desenhos
institucionais na história política brasileira, o que se
percebe é que poucas reformas foram efetivamente aceitas pela sociedade,
implementadas pelo governo e se consolidaram. Mesmo o arranjo institucional
mais recente, como o de criação das agências reguladoras
em decorrência do processo de reestruturação do Estado
e das privatizações, segue sendo alvo de contestações
políticas e legais que, no mais das vezes, não têm
contribuído para sua consolidação e eficiência.
Este texto parte
do pressuposto relativamente concertado entre cientistas políticos
de que o Brasil passa por problemas de governança e não
por problemas de governabilidade. Em geral, entende-se a governança
como a capacidade que um determinado governo tem para formular e implementar
as suas políticas. Esta capacidade pode ser decomposta analiticamente
em financeira, gerencial e técnica, todas importantes para a consecução
das metas coletivas definidas que compõem o programa de um determinado
governo, legitimado pelas urnas.
Já a governabilidade
refere-se às próprias condições substantivas
e materiais de exercício do poder e de legitimidade do Estado e
do seu governo derivadas da sua postura diante da sociedade civil e do
mercado. A governabilidade pode ser concebida como a autoridade política
do Estado em si, entendida como a capacidade que este tem para agregar
os múltiplos interesses dispersos pela sociedade e apresentar-lhes
um objetivo comum para os curto, médios e longos prazos. Essas
condições podem ser sumarizadas como o apoio obtido pelo
Estado às suas políticas e à sua capacidade de articular
alianças e coalizões entre os diferentes grupos sócio-políticos
para viabilizar o projeto de Estado e sociedade a serem implementados.[1]
Isso quer dizer que,
de certa forma, o processo político brasileiro encontrou um padrão
de comportamento razoavelmente previsível e estável, independentemente
da origem dos atores políticos – esquerda ou direita, se
for possível distinguí-los assim. O fato é que o
estado da governança no país é que nos demanda maior
preocupação e tem-se mostrado foco das maiores crises políticas
e econômicas da atualidade concedendo ao cenário brasileiro
aspectos de insegurança jurídica e instabilidade regulatória.
O arcabouço
teórico do neoinstitucionalismo busca elucidar o papel desempenhado
pelas instituições na determinação de resultados
sociais e políticos. A teoria nos oferece ferramentas para tentar
explicar como as instituições brasileiras carecem de identidade
e maturidade para incentivar e promover o desenvolvimento econômico
mais amplo e sólido.
Os autores neoinstitucionalistas,
dentre eles Douglas North, um dos mais conceituados teóricos dessa
corrente, afirmam que as instituições são as causas
"primordiais" do desenvolvimento econômico oferecendo
um arcabouço teórico que a economia clássica não
consegue abranger. Os argumentos principais afirmam que as instituições
fazem a diferença e são endógenas. As instituições
são determinantes do desempenho econômico e as responsáveis
pela criação de marcos de incentivos ou restrições
decisivas para o crescimento das forças produtivas e o desenvolvimento
pleno da sociedade.
Não é
por menos que o debate sobre reforma do Estado esteja presente nas discussões
que abordam desde a construção de políticas públicas
sociais (como por exemplo, a continuidade de programas sociais que dependem
da perpetuidade de determinados Ministérios) até os rumos
da política macroeconômica (por exemplo, a autonomia do Banco
Central).
Ainda de acordo com
North, “os países do terceiro mundo são pobres porque
neles as regras institucionais definem um conjunto de recompensas para
a atividade política e econômica que não encoraja
a atividade política”.
Nessa esteira, às
crises políticas por que tem passado o Estado brasileiro segue
o discurso da estabilidade das instituições democráticas
nacionais. É comum ouvirmos que as instituições políticas
não correm perigo mesmo diante das mais surrealistas histórias
de corrupção (endêmica e generalizada, na minha opinião!).
O mesmo não
pode ser dito com relação às crises ou reestruturações
econômicas, inclusive aquelas percebidas como necessárias.
Dessa forma, seguem desacreditadas as agências reguladoras, mormente
nesses últimos anos, da administração Lula, com orçamentos
contingenciados, funções esvaziadas ou repassadas aos Ministérios
– que, no entanto, estão incapacitados funcional e estruturalmente
para o desafio que se lhes impõe -, profissionais competentes sendo
perdidos pela busca de melhores condições de crescimento
e salário, inobservância dos prazos de recomposição
dos seus quadros diretores e, como resultante, maior vulnerabilidade diante
de atores privados e públicos – movimento conhecido como
“captura”.
E essa captura pode
ser explicada, em parte, pela ausência de consenso na sociedade
quanto ao modelo de agências reguladoras no Brasil. Entendo que
os motivos para essa ausência de confiança plena devem-se
aos seguintes fatores: pela novidade jurídica que representam ou
buscam representar, pela relativa autonomia administrativa que possuem
- nem sempre aceita pelos agentes políticos – e pela ausência
de uma elite burocrática técnica e profissional suficientemente
numerosa e com capacidade de se perpetuar – o que vai além
da simples realização de concursos públicos.
O estabelecimento
de uma burocracia própria e competente não se dará,
no entanto, com a imediata realização de concursos públicos.
É certo que a reciclagem dos profissionais, por meio de concursos
públicos não resolvem de imediato a questão da profissionalização
das agências, mesmo assim elas precisam dar continuidade à
realização de concursos públicos para preenchimento
de seus quadros numa perspectiva de reposição de quadros
no médio e longo prazo.
A ausência
de uma burocracia técnica tem afetado o bom funcionamento das Agências
- especificamente os setores de fiscalização. A deficiência
verificada constrange também as Agências diante das forças
privadas e das dinâmicas eleitorais de curto prazo. Existem hoje
nas agências servidores sempre prestes a deixarem o serviço
público, seja por melhores salários na iniciativa privada,
seja para a aposentadoria, sem que o know-how e o conhecimento dos mercados
regulados sejam passados aos concursados - pelo menos em parte.
A capacidade de insulamento
das elites burocráticas em relação às pressões
de grupos de interesse externos e internos de governo é considerada
pelos especialistas como estratégia central para experiências
bem-sucedidas de reformas estruturais e programas de estabilização.[2]
É essa forma de isolamento que igualmente blinda o órgão
contra a captura pública.
Como resultado desse
cenário vemos que no setor elétrico ainda existem empresas
estatais atuando ao lado de empresas privadas, em condições
de desequilíbrio. No setor de petróleo, a predominância
da Petrobrás é indiscutível, nem sempre desejável.
No setor de transportes, poucas são as vias terrestres administradas
por concessionários privados.
No setor de telecomunicações,
sobre o qual temos maior interesse, a presença executiva do Estado
brasileiro se deu por encerrada no momento da privatização
do sistema Telebrás. Em que pese o fato de que algumas empresas
ainda contar com o BNDES ou de fundos de pensão de empresas estatais
como grandes acionistas, os objetivos privados de maximização
do lucro – e por que não bem comum como resultante! - seguem
valendo.
Mesmo dentro desta
administração que se iniciou sob o brado da “terceirização
do Estado” há setores do governo que entenderam que a melhor
forma de atuar em mercados privatizados é por meio das agências
reguladoras.
Dessa forma, as agências
são percebidas como uma nova instituição, desvinculada
do histórico cartorial e clientelista das antigas formas estatais
enferrujadas - em que as trocas são sempre parte de barganhas políticas
sem a necessária relação com a eficiência econômica[3]
-, capaz de desenvolver o mercado que atende com base em trocas impessoais
com vista apenas à manutenção da eficácia
equidade das regras do jogo, o que, em última instância,
beneficiará principalmente o cidadão cliente desse serviço
público.
Todavia, a prática
não sempre se coaduna com a realidade dos fatos. Em telecomunicações,
são vários os exemplos, mas prefiro abordar o Projeto de
Lei 3.337, de 2004. A insatisfação do governo federal com
o arranjo herdado está consubstanciada nesse Projeto de Lei.
A harmonização
dos desenhos institucionais das agências como propõe é
um erro que, felizmente, vem sendo duramente combatido pelos mais diversos
setores da sociedade brasileira. As agências reguladoras não
podem ter as mesmas estruturas e métodos de trabalho tendo em vista
que seus clientes e mercados são bastante distintos. É desejável
que algumas práticas eficazes de administração e
transparência possam ser transplantados de uma agência para
outra. Um dos bons exemplos é a transmissão das sessões
do conselho diretor da Aneel pela Internet.
Dadas as dificuldades
encontradas na tramitação do Projeto de Lei 3.337, que erroneamente
padroniza as agências reguladoras, o governo parece ter encontrado
a saída não legislativa para contornar a autonomia das agências:
congelamento de recursos orçamentários, não renovação,
ou renovação débil dos seus quadros diretores. O
contingenciamento é de fácil explicação: superávit
primário. No entanto, é mais difícil explicar porque
as agências ficam acéfalas por tanto tempo. Em alguns casos,
não há listas tríplices para escolha presidencial,
em outros, os potenciais diretores escolhidos não passam pela sabatina
do Senado a tempo de recompor os conselhos diretores. Parece pouco provável
que a ausência do rito seja simplesmente por pura inabilidade do
Planalto.
Para concluir, acredito
que a sobrevivência funcional dos Ministérios ligados ao
setor de infra-estrutura somente se dará se a eles ocorrerem que
as suas atribuições mudaram. Para corresponderem ao novo
modelo institucional de agências reguladoras idealizado e ainda
em maturação no país, os Ministérios devem
ser primeiramente reduzidos em número, e aos que restarem terem
suas funções alteradas, compatibilizando-se com as atribuições
já delegadas às agências reguladoras. Os Ministérios
devem, portanto, se profissionalizar e se especializarem na construção
de políticas públicas que derivem de demandas concretas
da sociedade, contribuindo assim para a estabilidade institucional do
país.
[1] Vinícius
de Carvalho Araújo. “A conceituação de governabilidade
e governança, da sua relação entre si e com o conjunto
da reforma do Estado e do seu aparelho”. Cadernos Enap, nº
45, Brasília, 2002.
[2] Melo, Marcus André. “A
política de ação regulatória”, Revista
Brasileira de Ciências Sociais, vol. 16 nº 46, p. 60.
[3] Fiani,
Ronaldo. “Estado e Economia no Institucionalismo de Douglas North”.
Revista de Economia Política, vol. 23, nº 2 (90), abr-jun/2003.
*Jeferson
Fued Nacif é formado em Relações Internacionais
pela UnB, com especialização em Oriente Médio. Trabalhou
na área de Direitos Humanos e na Assessoria Internacional do Ministério
da Justiça. Na iniciativa privada, foi gerente de relações
institucionais da Telecom Itália América Latina e coordenador
de regulação da TIM Brasil. Ingressou na carreira de Especialista
em Políticas Públicas e Gestão Governamental (área
de regulação) do Ministério do Planejamento em 2006,
estando lotado na Assessoria Internacional do Ministério das Comunicações
desde então. “Este trabalho expressa
as opiniões do autor e não necessariamente reflete as posições
oficiais do Ministério das Comunicações.”
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