|

|
|
Viajar
com celular é um luxo para poucos
*Jeferson Fued Nacif
Viajar
para o exterior é um sonho para muitos brasileiros. Aqueles que
conseguem arcar com passagens aéreas, diárias e serviços
internacionais podem se considerar privilegiados. Mas, cuidado, pois o
sonho pode se transformar em pesadelo um mês depois, caso o viajante
tenha levado e usado um telefone celular brasileiro. Não faz muito
tempo, mesmo as viagens aéreas pelo Brasil eram coisa de “bacana”,
dado o alto preço de uma passagem de avião. A entrada de
companhias “low cost, low fare” esquentou a competição
no mercado incluindo, pela via da redução de preços
e promoções, cidadãos antes distantes dos aeroportos.
O incremento da competição
fez o número de passageiros crescer a 44 milhões em 2007
– aumento de 12% em relação a 2006. As linhas aéreas
internacionais de bandeira brasileira transportaram 17 milhões
de passageiros.
A indústria
de telefonia móvel no Brasil, por sua vez, seguiu o mesmo ritmo
de crescimento, apresentando taxa de 20%, fechando o ano de 2007 com 120
milhões de usuários. Se o número de passageiros internacionais
e o número de usuários de celulares vêm igualmente
num ritmo acelerado de crescimento, poder-se-ia imaginar que os serviços
de roaming internacional seguiriam um comportamento semelhante.
Os movimentos de globalização
dos mercados, integração regional e aumento dos fluxos turísticos
regionais e internacionais estão contribuindo para a movimentação
cada vez mais freqüente de pessoas entre os continentes.
Mas, o que de fato
ocorre é que esse tipo de serviço segue representando muito
pouco no balanço das empresas e menos ainda como uma característica
de valor para os viajantes brasileiros. Na Europa, as receitas de roaming
de algumas operadoras chegam a 30%. No Brasil, estima-se que as operadoras
não ganhem mais do que 2% com o roaming.
Antes de seguir adiante
é preciso explicar que roaming internacional é o serviço
oferecido por operadoras móveis que habilitam o aparelho e a linha
do usuário a funcionarem no exterior como se estivessem fazendo
uso de sua própria rede nacional e com o mesmo número de
acesso. Dependendo da tecnologia e do contrato assinado entre as operadoras,
todos os serviços podem ser normalmente utilizados, como recebimento
e originação de chamadas, envio de mensagens de texto, MMS
e tráfego de dados, inclusive sincronização de e-mails
em smartphones.
Estamos acostumados
a levar nossos aparelhos para viagens nacionais e, dependendo do plano
de serviço contratado, aos valores envolvidos. No roaming internacional,
os valores são tão exorbitantes que grande parte dos viajantes
nem ligam seus aparelhos ou ficam apenas no uso de mensagens de texto,
significativamente mais baratas. Diferentemente do padrão de cobrança
brasileiro, chamado de CPP – calling party pays, ou seja, paga quem
faz a chamada -, no exterior, as chamadas recebidas em roaming também
são cobradas. É preciso lembrar também que uma segunda
ou terceira rede estão sendo usadas para que a chamada possa ser
transportada e isso aumenta o preço do serviço.
Somando tudo isso
(valor das chamada, operadora nacional, operadora estrangeira, operadora
transportadora, impostos internacionais) ao famigerado leão brasileiro,
podemos chegar a mais de 100% de aumento do valor de uma chamada normal
no País. Vamos aos exemplos. Viajando para os Estados Unidos, os
valores são os seguintes para as três principais operadoras
brasileiras:
*Os preços
cotados em dólares foram convertidos para real a uma taxa de câmbio
de R$. 1,7.
** entre parênteses
o valor da operadora mais cara.
Não
estão incluídas as chamadas de dados nem chamadas para celulares
satelitais (que chegam a custar US$ 20 o minuto!!). Tomando o preço
mais baixo e o mais alto para o mesmo tipo de chamada já percebemos
distorções gritantes. Para as chamadas locais em roaming,
uma diferença de 160%. Para as chamadas realizadas para o Brasil,
a mesma diferença ocorre, um pouco mais de 100%. Quanto às
chamadas recebidas nos Estados Unidos, a diferença chega a 168%
se compararmos a operadora mais barata com a mais cara. O serviço
preferido de quem conhece os valores envolvidos no roaming é o
recebimento e envio de mensagens de texto. Felizmente, nenhuma das operadoras
cobra pelo recebimento de SMS, mas enviar também não fica
tão barato assim e a diferença pode chegar novamente a mais
de 100% entre as operadoras pesquisadas.
Tudo bem, aceitemos
os valores cobrados. Afinal, viajar para o exterior com o próprio
celular, fazer e receber chamadas de voz e dados sem alterar seu número
de acesso é realmente algo bastante confortável e que traz
grande satisfação ao usuário. Desde, obviamente,
que o celular funcione, que se consiga ser reconhecido e registrado na
rede visitada. Ao sair do avião e ligar o celular, a ansiedade
é grande até ver o nome da operadora no visor do aparelho.
Pelo preço
cobrado, o serviço deve ser excelente, não é mesmo?
Não necessariamente! Já imaginou pagar quase R$. 6,00 por
uma chamada enganada ou por telemarketing? Bem, basta não atender!
Mas, como não atender se no visor do celular o identificador de
chamadas não funciona? Além do mais, antes de viajar não
se esqueça de levar os números de contato da sua operadora,
pois se o seu celular não funcionar, o transtorno pode ser grande.
Qualidade de chamada? Nada garantido! As operadoras podem transportar
sua chamada usando métodos mais baratos (para elas), ou seja, voz
sobre IP, de qualidade duvidosa.
Diante desse cenário
nebuloso, os brasileiros encontraram uma saída. Chegando no exterior,
compram um chip pré-pago para poderem receber chamadas e realizar
uma ou outra de vez em quando. Lembrando, o aparelho deve estar desbloqueado
para que essa operação seja possível. Alternativamente,
pode-se recorrer à velha formula dos cartões internacionais
vendidos nos saguões dos aeroportos brasileiros.
Para reverter esse
quadro, em que operadoras perdem o cliente, usuários perdem a comodidade
de uso do próprio número e o governo perde arrecadação,
empresas e governo federal precisam encontrar saídas tanto para
reduzir a alta carga tributária que incide sobre os serviços
de roaming internacional quanto para a melhoria da prestação
do serviço. Dessa forma, com redução dos preços
e qualidade melhorada, os usuários poderão ter a possibilidade
de usar o seu celular no exterior.
*Jeferson
Fued Nacif é formado em Relações Internacionais
pela UnB, com especialização em Oriente Médio. Trabalhou
na área de Direitos Humanos e na Assessoria Internacional do Ministério
da Justiça. Na iniciativa privada, foi gerente de relações
institucionais da Telecom Itália América Latina e coordenador
de regulação da TIM Brasil. Ingressou na carreira de Especialista
em Políticas Públicas e Gestão Governamental (área
de regulação) do Ministério do Planejamento em 2006,
estando lotado na Assessoria Internacional do Ministério das Comunicações
desde então. “Este trabalho expressa
as opiniões do autor e não necessariamente reflete as posições
oficiais do Ministério das Comunicações.”
Fale
com o autor deste artigo
Arquivo de Matérias do Autor
Direitos reservados. Proibida a reprodução, sem
prévia comunicação.
O texto reflete a
opinião do autor.
|
|