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*André Azevedo da Fonseca Nossa herança escravocrata persiste tão enraizada nos costumes que convém denunciá-la, especialmente nos locais onde ela se apresenta sem dizer o nome. O raciocínio racista, quando formulado de forma cordial, com sorrisos simpáticos, torna-se particularmente perigoso, pois domestica a rebeldia, amansa a indignação e enraíza ainda mais essa mentalidade no espírito coletivo. Chamados de "sabedoria popular", os ditos populares e expressões idiomáticas, devido à sua natural e imediata aceitação, podem servir de canal para impregnar na cultura o preconceito racial. O caso clássico do "preto de alma branca", por exemplo, já não é admitido com a mesma ingenuidade de antes. Disfarçado em elogio, no "preto de alma branca" está embutido um racismo ordinário, que só é capaz de admitir dignidade no negro se este apresentar em si a cor do branco. O negro seria naturalmente incapaz de comportar-se educadamente, e só seria admitido pelos brancos caso se portasse como "um deles". O dominador confirmaria seu racismo através da indulgência ao negro adestrado que, obedientemente, imita os valores do branco. O negro "preto de alma branca" é tido como uma exceção, é tolerado desde que negue sua própria alma para admitir a "superioridade natural" do outro. Os movimentos negros já não admitem essa distorção e hoje demonstram elevada auto estima ao se orgulhar da riqueza da "alma negra" na diversidade cultural do país. Serviço de preto Outra expressão muito popular em nosso racismo cordial é atribuir a qualidade de "serviço de preto" a um serviço malfeito. Provavelmente esse ditado vem da época da escravidão oficializada, quando os negros eram obrigados a trabalhar debaixo da chibata. Convenhamos, o escravo não tinha nenhum motivo para fazer o trabalho bem-feito, não tinha a mínima vontade de ser um bom e eficiente serviçal. Pelo contrário, o dever de qualquer ser humano submetido à escravidão é justamente fazer o serviço da pior forma possível. Uma maneira de expressar resistência era faz malfeito propositadamente para driblar a violência do excesso do trabalho escravo. Essa atitude pode ser interpretada como uma tática da rebeldia no xadrez da dominação. Os mais corajosos rebelavam-se, lutavam e fugiam. Os menos impetuosos sabotavam a produtividade do branco da maneira possível. "Trabalho de preto", portanto, deveria ser sinônimo de resistência, indignação, protesto. Na organização dos quilombos é que os ex-escravos faziam o verdadeiro serviço de preto: eficiente, disciplinado e coletivista. A professora de História da Uniube, Eliane Mendonça, lembra que, desde o período de escravidão, o trabalho pesado, braçal e de baixa remuneração é destinado aos negros. Nesse sentido, a expressão racista carrega consigo também o sentido de trabalho árduo, de baixa qualificação. Dados da pesquisa Mapa da população negra no mercado de trabalho realizada pelo DIEESE em seis capitais brasileiras durante o ano de 1998, demonstra "indicadores sistematicamente desfavoráveis aos trabalhadores negros". De acordo com o estudo, "os rendimentos dos trabalhadores e trabalhadoras negros são sistematicamente inferiores aos rendimentos dos não-negros, quaisquer que sejam as situações ou os atributos considerados". (Dados disponíveis no sítio www.dieese.org.br) Quem mandou? Quando alguém faz alguma coisa que sai errada, é muito comum ouvir a repreensão: bem feito, quem mandou?. Nesta expressão está embutida uma reprovação à livre iniciativa. De acordo com o raciocínio implícito nessa pergunta, se ninguém mandou fazer, a ação está necessariamente errada e seria naturalmente condenada ao fracasso, pois o erro já nasceu na vontade da iniciativa própria. Quem mandou? Se alguém tivesse "mandado fazer", teria dado certo – ou então, o interlocutor submisso teria o conforto de atribuir a responsabilidade do erro a quem ordenou, assumindo sua condição de mero cumpridor de ordens. A expressão é um misto de paternalismo patológico com certa mentalidade escravocrata. Ela existe para castrar o espírito empreendedor diante a primeira falha, e impedir a aprendizagem por tentativa e erro. Aqueles que temem o "quem mandou" tornam-se conformistas, pois a expressão induz à percepção do erro como tragédia, como incompetência, e não como um resíduo fundamental do processo de aprendizagem. Essa fórmula provoca baixa auto estima e incentiva a pedagogia do medo, levando o indivíduo ao conformismo perante a submissão. - No dia 20 de novembro comemora-se o Dia Nacional da Consciência Negra *André
Azevedo da Fonseca http://azevedodafonseca.sites.uol.com.br/ |
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