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Como
conhecer o caráter dos candidatos?
*André Azevedo da Fonseca
Períodos
eleitorais tornaram-se um dos momentos mais despolitizados da vida em
sociedade. O espetáculo publicitário onde os aspirantes
a cargos públicos anunciam seus slogans não promove a cidadania,
não conscientiza, não educa e não estimula o envolvimento
efetivo da comunidade na política. Ao contrário, essas propagandas
tendem a confundir os cidadãos; pois não importa o candidato,
todas reproduzem as mesmas idéias genéricas sobre os mesmos
temas, todas defendem os mesmos compromissos gerais referente aos mesmos
programas e, o que é pior, todas personalizam a política,
como se as conquistas sociais fossem obras exclusivas da atuação
de um só sujeito. Isso é a contramão da democracia
moderna, que fundamenta-se na participação cada vez maior
da coletividade nas decisões de Estado.
Assim, sejamos claros:
não é possível escolher os representantes com base
em suas próprias campanhas publicitárias. Candidatos não
falam nas propagandas que suas gestões anteriores estão
sob suspeita; não explicam suas ligações com escândalos
como o mensalão ou a máfia dos sanguessugas; não
tornam claros os casos de corrupção que ocorreram sob sua
administração; escondem que são indiciados como réus
em processos na Justiça Federal, nos tribunais superiores, na Justiça
Eleitoral ou nos Tribunais de Contas... a lista é longa.
Algum coisa nesse
sentido podemos descobrir conferindo sites como o da ONG Transparência
Brasil (http://www.transparencia.org.br), que possui um importante banco
de dados sobre dezenas de políticos profissionais, contendo informações
tais como a identidade dos doadores de campanha; o desempenho legislativo
(incluindo faltas, uso de verbas de gabinete, etc); as menções
publicadas na mídia quando aparecem ligados a casos de corrupção,
além de outras informações relevantes. Outra boa
fonte de pesquisa é o próprio site da Câmara Federal,
onde é possível conferir, no endereço http://www2.camara.gov.br/proposicoes
quais foram os projetos de lei realmente apresentados pelos deputados,
se eles trabalharam mesmo ou se apenas estão fazendo propaganda
enganosa em suas campanhas.
No entanto, há
uma outra medida que é mais difícil de ser mensurada, mas
que pode ser reveladora: sempre vale a pena conversar com empregadas domésticas,
jardineiros, motoristas, secretárias ou ex-assessores e ex-funcionários
para descobrir o que os políticos profissionais realmente falam
no seu dia-a-dia. O que se diz é que, em geral, eles jamais falam
em projetos para transformar a sociedade. Nunca conversam sobre formas
institucionais de promover justiça social. Não fazem referências
sobre mobilização política das comunidades para exigir
melhorias sociais. Os únicos assuntos ditos “políticos”
giram em torno das táticas partidárias de conquista do poder,
da melhor forma de caluniar o adversário, da maneira mais eficaz
de forjar uma imagem favorável na imprensa, nas vantagens em se
apoiar este ou aquele político profissional, e a conversa fica
por aí. É o poder pelo poder. Mais ou menos como descreveu
Mário Palmério em Vila dos Confins.
Mas quem são
esses sujeitos que de dois em dois anos saem às ruas nos pedindo
um cargo público? O que eles realmente querem? Que tipo de prazer
eles sentem sendo políticos profissionais? E o que essas pessoas
entendem por “política”? O que entendem por “democracia”?
E enfim, como conhecer, de verdade, o caráter dessas pessoas que
nos pedem votos? Seria muito interessante, mas muito interessante mesmo,
travar um debate sobre isso.
*André
Azevedo da Fonseca
Historiador, comunicólogo, professor universitário e pesquisador
no Memorial Mário Palmério. Autor de "Cotidianos culturais
e outras histórias: a cidade sob novos olhares". Doutorando
em História Cultural na Unesp.
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Arquivo de
André Azevedo
O texto reflete a
opinião do autor.
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